Segue a abaixo a matéria Correio Popular (edição de 07/11/2009). Muito interessante o texto de Renata Esmi Laureano, que diferentemente do vereador coletor de currículos exalta a educação e cultura através de brincadeiras simples com a pipa. Acho que o Osmar não teve infância….
Indaiatuba proíbe empinar pipas em vias públicas
Brincadeira só será permitida em lugares predeterminados, como o Parque Ecológico e clubes
Rubens Morelli
DA AGÊNCIA ANHANGUERA
rubens.morelli@rac.com.br
Céu azul, brisa suave, fim de semana. O cenário é ideal para brincar de pipa. Mas se você está em Indaiatuba, é bom tomar cuidado antes de soltar o carretel. Desde ontem, a cidade tem lugar marcado para empinar os tradicionais papagaios e pipas. Pelo menos é o que determinou o prefeito Reinaldo Nogueira (PDT), ao sancionar a Lei nº 5.657, de autoria do vereador Osmar Bastos (PDT), que proíbe empinar pipas, papagaios ou similares em vias públicas, exceto em lugares predeterminados pela Administração municipal.
De acordo com o vereador, a proposta da lei é conscientizar a população sobre os perigos envolvendo a pipa e o uso do cerol. “O objetivo é educar e orientar as pessoas para a prática saudável de empinar a pipa. Não temos a intenção de punir ninguém”, diz Bastos. Mas a lei prevê punição para quem descumprir a regra. A multa é de R$ 79,25 — equivalente a cinco unidades fiscais do Estado de São Paulo (Ufesps), cuja unidade tem o valor de R$ 15,85 — para cada conjunto de material apreendido e pode dobrar em casos agravantes.
A nova legislação causou estranheza entre a população. O comerciante Emerson Ruela, que vende pipas no bairro Morada do Sol, não gostou da novidade. “Sou contra o uso do cerol e acho certo fiscalizar quem usa esse tipo de linha. Mas proibir o pessoal de soltar pipa é demais. A pipa é uma diversão na rua”, afirma Ruela. “Acho que a molecada vai continuar soltando a pipa em qualquer lugar. Como é que a Prefeitura vai multar as crianças?”, indaga. “Daqui a pouco, vão proibir a turma de jogar futebol na rua porque é perigoso”, ironiza o vendedor Eric Leandro, que também não gostou do projeto.
A prática de empinar pipas está liberada em locais determinados pela Administração municipal, como o Parque Ecológico, campos esportivos, públicos ou privados, clubes associativos ou em áreas localizadas na zona rural. A fiscalização, segundo Reinaldo Nogueira, caberá à Prefeitura, em conjunto com a Guarda Municipal (GM). “Os fiscais vão passar onde há riscos aos motociclistas e pedestres. Não somos contra a pipa, mas queremos garantir a segurança, fazendo com que as crianças soltem pipas nos lugares corretos, evitando os acidentes”, afirma o prefeito.
Brincadeiras
O pedetista ressaltou que a pipa era uma das brincadeiras preferidas durante a infância. “Eu até vendia as pipas que um colega fazia. Sou a favor e apoio a brincadeira consciente. Existe até um projeto na Câmara sobre a realização de um campeonato de pipas na cidade, que deve sair em breve”, diz Reinaldo Nogueira.
Para vereador, quem usa cerol não será punido
O vereador Carlos Alberto Rezende Lopes (PT), o Linho, foi contrário à lei. Ele entende que a regra não pune o infrator, mas quem brinca de pipa inocentemente. “Temos de combater o cerol. Proibir a brincadeira de soltar pipa, que é tão tradicional, não vai resolver os perigos do cerol”, afirma. A mistura de vidro triturado e cola usada em linhas foi tema de diversos debates na Região Metropolitana de Campinas (RMC) nos últimos anos. Várias cidades criaram legislação própria contra o uso do cerol, incluindo Indaiatuba. A inovação, proibindo as pipas, desagradou ao vereador. “O Poder Legislativo deve pensar em outros tipos de projetos para a cidade. Uma lei como essa colabora para que a Câmara receba mais críticas da população”, afirma Linho, que não acredita no sucesso da causa. “O infrator, que usa cerol na linha, não vai até o local determinado para empinar a pipa. Essa lei vai prejudicar a criança que tem bom comportamento com as pipas. Temos que mobilizar a sociedade e o poder público para fazer campanhas de conscientização do bom uso das pipas, e não proibir.” (RM/AAN)
PONTO DE VISTA
Renata Esmi Laureano
Graduada em pedagogia e mestre em educação na área de formação de professores na Educação Infantil
Infância, tempo de brincar
Infância é tempo de brincar. E brincar é um direito da criança. Cabe aos adultos zelar e garantir que as crianças tenham tempo e espaço para suas brincadeiras. Ao brincar, a criança se apropria e reinventa a cultura. Pipa, pião, bola de gude e corda, entre outros, são brinquedos que compõem a cultura popular brasileira. Brincar com esses instrumentos é fortalecer a nossa identidade cultural. Para a criança, mais do que isso. É vivenciar a infância de modo múltiplo, em contato tanto com os brinquedos industrializados como os feitos à mão. É dialogar com o futuro, mas também com o passado. Um grande problema da urbanização é a falta ou a diminuição de espaços para as crianças brincarem nas ruas. Assim, as instituições de educação infantil assumem um importante papel de garantir o direito à brincadeira. E, por consequência, o desenvolvimento da criança.
